AO CAIR DA TARDE de Maximiliano de la Puente

Dedicado a R. W. Fassbinder
“Da sensação de pesar e dor seremos libertados;
não sentiremos, porque não seremos.
Embora a terra nos mares, e os mares no céu
estejam perdidos,
não nos moveremos, só seremos suprimidos”
De Rerum Natura (Lucrecio)

Esta obra obteve o primeiro Prémio do 5º Concurso Nacional de Obras de Teatro, (Nova Dramaturgia Argentina), organizado pelo Instituto Nacional del Teatro, em Março de 2004, e também foi galardoada com o Segundo Prémio no Concurso de Obras Inéditas de Teatro-Ano 2003 do Fondo Nacional de las Artes. Foi publicada no livro: “Siete autores. La nueva generación”, (Buenos Aires, Inteatro, Editorial del Instituto Nacional del Teatro, 2004.)

Cena 1: Estrangeiro, loira.

O estrangeiro e a loira caminham no meio de uma rua deserta, na tarde de um dia agradável. É a hora da sesta. A loira caminha agarrando o braço do estrangeiro. Este, caminha com o olhar fixo, perdido no vazio.
Ruiva
É bonito tudo isto, não?
Silêncio.
Ruiva
Digo… a hora. O clima. A tarde. A sesta.
Silêncio. O estrangeiro olha-a.
Ruiva
Adoro estar contigo. Quero-te.
O estrangeiro começa a olhar para as mamas dela fixamente. Sem hesitar.
Ruiva
E tu? Não gostas de estar comigo?
O estrangeiro olha como as mamas dela sobem e descem à medida que ela respira.
Estrangeiro (tocando-lhe nas mamas)
Estas. Gosto. Estas.
Ruiva
Só gostas destas? Ou também gostas das outras?
Estrangeiro (com as mãos nas mamas da ruiva)
Estas. Sim. Gosto.
Ruiva
E das outras… gostas?
Estrangeiro (distraído, sem ouvir a loira, absorto nas suas mamas)
Estas. Gosto muito. Estas…estas…
Ruiva
Mamas.
Estrangeiro (repetindo com dificuldade)
Ma-mas.
Ruiva
Vais levar-me à Albânia algum dia?
Estrangeiro
Albânia. Sim. Linda.
Ruiva
Quero-te.
Silêncio. O estrangeiro continua a olhar para as mamas.
Ruiva
Quero-te porque tu não sabes falar. E isso é o melhor que me pode acontecer.
Silêncio.

Cena 2: Estrangeiro, Negra.

O estrangeiro e a negra caminham no meio de uma rua deserta, na tarde de um dia agradável. A hora da sesta. A negra caminha agarrando o braço do estrangeiro.

Este caminha com o olhar fixo, perdido no vazio.

Negra

É bonito, não?

Silêncio.

Negra

Digo… o dia… o clima… a tarde… este sol… este dia…

Silêncio. O estrangeiro olha-a.

Negra

Gosto muito de estar ao teu lado. Quero-te.

O estrangeiro gira a cabeça e começa a olhar fixamente para o rabo dela. Sem hesitar.

Negra

E tu gostas de estar comigo?

Silêncio.

Estrangeiro (tocando de improviso, mas com firmeza no rabo da negra)

Este. Gosta. Este.

Negra

E só gostas deste? Ou também gostas dos das outras?

Estrangeiro

Este. Gosta. Este.

Negra

E o das outras… não gostas?

Estrangeiro

Este. Gosta. Gosta muito. Este… este…

Negra

Rabo.

Estrangeiro (repetindo com dificuldade)

Ra-bo.

Silêncio.

Negra: quando me vais levar à Albânia?

Estrangeiro

Albânia. Sim. Albânia linda.

Negra

Quero-te.

Silêncio. O estrangeiro olha-a.

Negra

Quero- te porque me olhas sempre para os olhos quando falas comigo. Sem pestanejar.

Silêncio.

Cena 3: ruiva, negra.

Duas mulheres, uma ruiva e uma negra, caminhando no meio de uma rua deserta, na tarde de um dia agradável. Na hora da sesta. A negra dá o braço à ruiva. A ruiva aceita-o. Caminham de braço dado, com lentidão. Vestem vestidos justos, bastante curtos.

Ruiva

O meu é muito bom.

Negra

O meu também.

Ruiva

Quando me toca faz-me sentir coisas.

Negra

A mim também me toca. Mas isso das coisas… não sei. Não as sinto.

Ruiva

Dá-me prendas.

Negra

O meu também.

Ruiva

Algo. Quase qualquer coisa.

Negra

Mas não importa, é igual. Porque porta-se sempre muito bem.

Ruiva

Tanto faz.

Negra

Mas às vezes não.

Ruiva

Sempre. Ou melhor dito: quase sempre.

Negra

Porta-se muito mal. Ou tem a intenção de se portar muito mal.

Ruiva

Não quero. Não gosto quando faz isso.

Negra

Respira para cima de mim muito perto da nuca. Outras vezes olha-me como se estivesse com ciúmes.

Ruiva

Digo-lhe todos os dias. Mas não faz caso.

Negra

Tenho-lhe medo. Esse é o problema.

Ruiva

Continua a dar-me prendas parvas. Que não me servem. Nem me interessam.

Negra

Tenho-lhe muito medo porque sei que um dia vai partir-me a cabeça com um pau.

Ruiva

Mas acho que não se apercebe.

Negra

Claro. Isso é o pior. Eu nem sequer me vou aperceber.

Ruiva

E continua a fazê-lo.

Negra

É muito perigoso para nós as duas tudo isto.

Ruiva

Dá-me prendas muito feias. E olha-me com uma cara. Com uma expressão. Como se tivesse medo de mim.

Negra

E é muito estranho que ele me provoque tanto medo.

Ruiva

Ou ainda pior: olha-me como se me tivesse terror. Como se fosse uma arpia, uma descarada.

Negra

Acho que vou ter que me afastar dele.

Ruiva

Como se em qualquer momento eu estivesse a ponto de lhe arrancar o coração.

Negra

Dar distância. Ir para longe. Esperar que as coisas se limpem. Que a maldade dele desapareça.

Ruiva

Não sei porque sente isso. Se eu não dou essa impressão, não é?

Negra

Pôr panos frios na questão.

Ruiva

Sou bem mais quente com o meu. Protego-o. Apoio-o. Dou-lhe valor.

Negra

Frialdade. Olhar tudo de longe. Como se o que me acontece comigo não me pertencesse. Como se não tivesse nenhum valor.

Ruiva

Espero que o meu saiba ver tudo isso, alguma vez na vida.

Negra

Um dia vai-se dar conta de tudo o que nos uniu.

Silêncio.

Cena 4: Homem 1, Homem 2, Estrangeiro.

Mesa de um bar. O homem 1, o homem 2 e o estrangeiro tomando uma cerveja. Brindam.

Homem 1 (ao homem 2, olhando para o estrangeiro)

Este é um filho da puta.

Homem 2

Já vais ver.

Homem 1

Vai saber o que é bom.

Homem 2

Como pode ser tão filho da puta para olhar para as nossas mulheres!

Homem 1

É preciso cortá-lo em mil pedacinhos!

Homem 2

Assim vai aprender com quem se pode meter.

Homem 1

E ainda por cima este albanês de merda trabalha por qualquer coisa.

Homem 2

Trabalha pelo que aparecer. O que lhe derem. Uma miséria. Qualquer coisa lhe serve.

Homem 1

E nós temos de cagar de fome porque este porco asqueroso trabalha por moedas.

O estrangeiro que tinha o olhar perdido, repara neles, levanta o seu copo de cerveja e brinda com eles. Os três sorriem e gritam efusivamente.

Homem 1

O filho da minha puta.

Homem 2

Albanês de merda.

Homem 1

Queres dizer-me para que caralho teve de vir para cá este porco?

Homem 2

Era preciso queimá-lo com querosene, e pôr-lhe fogo.

Homem 1

Ou tínhamos de pegar numa faca, entrar na sua casa, quando estiver a dormir, e zás! Tchau pila albanesa.

Homem 2

Adorava cortar-lhe os ovos.

Homem 1

Assim vai aprender a não gozar com a minha mulher.

Homem 2

E que connosco não se brinca.

O estrangeiro levanta de novo o seu copo de cerveja. Volta a brindar com eles. Os homens 1 e 2 sorriem-lhe. Os três cumprimentam-se e gritam efusivamente.

Cena 5: Homem 1, estrangeiro.

O Homem 1, apoiado sobre uma varanda, no meio de uma rua vazia, olhando para a frente, com o olhar perdido.

Entra o estrangeiro, vestido de fato e gravata.

Homem 1

Olá. Que tal. Como vai.

O estrangeiro olha-o, sem dizer palavra.

Homem 1

Onde vai?

Estrangeiro (pronunciando com muita dificuldade)

Tra-ba-lho.

Homem 1 (surpreendido)

Trabalho?

Estrangeiro

Tra-ba-lho.

Homem 1

Mas como? Se cá não há trabalho.

Estrangeiro

Não… não comprendo.

Homem 1 (gritando)

Que cá não há trabalho!

O estrangeiro fica mudo, sem dizer palavra.

Homem 1

Cá não há trabalho.

Estrangeiro

Sim. Cá sim trabalho.

Homem 1

Não. Cá não há trabalho.

Estrangeiro

Sim. Cá trabalho. (assinalando) para mim.

Silêncio. O Homem 1 olha-o.

Homem 1

E pagam-lhe?

O estrangeiro fica mudo, olhando-o.

Homem 1

Pergunto se lhe pagam!

Estrangeiro

Não… não comprendo.

Homem 1

Moeda! Dão-lhe dinheiro no trabalho?

Estrangeiro

Dinheiro! Sim. Sim. (com dificuldade) di-nhei-ro.

Homem 1

E na Albânia, que aconteceu, não tinha trabalho?

Estrangeiro

Albânia!

Homem 1

Sim. Albânia.

Estrangeiro

Albânia não trabalho. Não dinheiro.

Silêncio.

Homem 1

E gosta de cá?

O estrangeiro fica mudo, olhando-o.

Homem 1

Pergunto-lhe se gosta de cá!!

Estrangeiro

Ah! Ah! Cá?

Homem 1

Sim, cá!

Estrangeiro

Cá. Sim. Gosta.

Homem 1

Estranha?

Estrangeiro

Frio. Cá frio. Albânia calor.

Silêncio.

Homem 1

És casado?

Silêncio. O estrangeiro olha-o.

Homem 1 (gritando)

Se és casado!

Estrangeiro

Não comprendo.

Homem 1

Mulher. Filhos.

Estrangeiro

Mulher. Sim. Filhos. Sim.

Homem 1

E onde estão?

Estrangeiro

Mulher. Filhos. Sim.

Homem 1 (gritando)

Onde estão!

Estrangeiro

Ah! Mulher. Filhos. Albânia.

Homem 1

Filhos. Quantos. (fazendo gestos com as mãos) um…dois…três…

Estrangeiro

Filhos. Dois.

Silêncio.

Cena 6: ruiva, negra, Morena, Homem 1, Homem 2, Homem 3, Estrangeiro

Todos eles estão apoiados sobre uma varanda, no meio de uma rua vazia, imóveis.

A loira toma o braço do Homem 1. A morena faz o mesmo com o homem 2. Morena e o homem 3 nem se olham.

Ruiva

Bonito, não?

Homem 2

Sim. A verdade é que sim.

Morena

Tão acho que não seja para tanto.

Homem 3

A mim parece-me que é muito bonito.

Homem 1

Eu também estou de acordo.

Morena

Sim, mas podia ser melhor, não?

Ruiva

Como pode ser… pode ser sempre melhor.

Negra

No entanto a mim parece-me que está muito bem assim.

Morena

A mim não.

Silêncio. Todos permanecem quietos.

Entra un estrangeiro com fato e gravata, carregando uma mala.

Morena

E você quem é?

Silêncio. O estrangeiro olha-a.

Morena

Quem é você?

Homem 3

Responde, homem. A senhora fez-lhe uma pergunta.

Silêncio. O estrangeiro olha agora para o homem 3.

Homem 1

Mas que se passa, não sabe falar, não tem língua?

Ruiva

Dói-lhe alguma coisa? Sente-se mal?

Negra

Tem algum problema?

Homem 2

E?

Homem 1

A quem procura?

Morena

Que quer?

Silêncio. O estrangeiro olha para todos. Deixa a mala na sala.

Estrangeiro (com muita dificuldade)

Eu… não… não… cá… Não…

Homem 2

Que quer dizer?

Homem 1

Não é de cá.

Negra

É estrangeiro. É isso que quer dizer.

Ruiva

Um estrangeiro. Que bom! De onde é?

Homem 3

É italiano.

Morena

É italiano como?

Homem 3

Sim. É italiano. Acho.

Morena

E como é que sabes?

Homem 3

Pelo aspecto físico. Pelo perfil. Pelo tipo. Não se dão conta?

Ruiva

Sim. Parece-me que sim. É italiano.

Negra: Não acho que seja italiano. Não me parece muito parecido com os italianos que conheci.

Morena

Tu conhesceste muitos italianos?

Negra

Não o disse nesse sentido.

Morena

Eu não o disse em nenhum sentido. Não sei porque dizes isso.

Homem 1

Por favor. Não se peguem.

Ruiva

Não é melhor perguntarmos- lhe a ele de onde vem?

Homem 1

Achas?

Ruiva

Sim. Acho que é o melhor.

Homem 3

Eu também. Assim tiramos as dúvidas.

Ruiva (para o estrangeiro)

Senhor, por favor, pode dizer-me de onde é?

Silêncio. O estrangeiro percebe a presença da loira. Contempla a sua figura. Depois de um tempo, começa a olhar-lhe para as mamas.

Homem 1

Não. Assim não vai funcionar. Tens que falar de outra maneira, se queres que te entenda.

Ruiva

Como?

Homem 1

Assim. Olha. Vais ver. Como eu. (para o estrangeiro, gritando)

De onde vem!

O estrangeiro deixa de olhar para as mamas da loira,e olha para o homem 1.

Homem 1

Sim, sim! Você! (assinalando para ver se assim o percebe) de onde é que você é!

Estrangeiro (assinalando-se a si)

Eu… Albânia.

Homem 3

Como?… De Albânia!…

Estrangeiro (assinalando-se)

Eu… Albânia.

Morena

E quem procura? Que veio fazer cá?

Estrangeiro: Albânia. Trabalho. Não. Cá. Trabalho. Sim.

Homem 2

Cá trabalho?

Estrangeiro

Albânia. Trabalho. Não. Cá. Trabalho. Sim.

Homem 1

Mas como pode ser que dêem trabalho a este tipo?

Ruiva

E porque não?

Homem 1

Mas olha o idiota que ele é! E como está vestido!

Ruiva

Sim está muito bem vestido!

Homem 2

Sim. Mas deve ser o único fato decente que pôs em anos.

Ruiva (para o estrangeiro)

E diga-me, senhor, quem procura?

O estrangeiro olha para a loira. Lembra-se de alguma coisa, procura um papel no seu bolso, encontra-o e dá-lo à loira.

Ruiva (lendo o papel)

Manzanares 52. Primeiro “E”.

Homem 1

Mas é esta morada!

Homem 2

Deve ser um inquilino novo.

Homem 3

Justamente aqui toca-nos um estrangeiro. E ainda por cima um como este.

Negra (ao estrangeiro)

É por ali. Senhor.

Silêncio. O estrangeiro olha-a.

Negra (assinalando)

Por ali.

O estrangeiro fica em silêncio, olhando para a morena. Não se mexe.

Homem 1 (gritando e assinalando o mesmo local que a morena)

Disse-lhe que é por ali!

O estrangeiro olha para o homem 1, pega na sua mala e vai na direcção que lhe indicam.

Homem 2

Que nojo de tipo!

Homem 1

Que merda de estrangeiro mais insuportável!

Homem 3

E tinha logo que vir para aqui.

Negra (para a Morena, em voz baixa)

Tem qualquer coisa… um não sei quê… que gosto muito.

Morena

Quem? Esse albanês?

Negra

Sim. Já sei o que é. Quando fala contigo olha-te sempre para os olhos. Sem pestanejar.

Silêncio.

Cena 7: Morena, estrangeiro.

Morena e o estrangeiro: no meio da rua deserta, na tarde de um dia agradável. Na hora da sesta. Morena caminha agarrando o braço do estrangeiro. Este caminha com o olhar fixo, perdido no vazio.

Morena

Lindo, não?… Lindo…

Silêncio.

Morena

…Muito lindo…

Silêncio.

Morena

…Tudo isto.

Silêncio. O estrangeiro olha-a.

Morena

Ás vezes gostava de ter pesadelos…

Silêncio.

Morena

…para ter alguma coisa em que pensar.

Silêncio. O estrangeiro tira um cigarro e um isqueiro de um bolso interior do seu casaco, acende-o e fuma muito lentamente.

Morena

…Gostava que todas as coisas que conheço desaparecessem…

Silêncio.

Morena

…gostava de puder envelhecer em paz…

Silêncio. O estrangeiro fuma e olha-a.

Morena

…Não… não quero envelhecer…

Silêncio.

Morena

…nunca…

Silêncio. Morena deixa de caminhar. Olha para o estrangeiro.

Morena

Como te chamas?

Silêncio.

Cena 8: Morena, homem 3.

Departamento de Morena. Morena e o homem 3 estão sentados em duas cadeiras em completo silêncio. Com o olhar fixo na parede. Além das cadeiras há, em frente deles, uma mesinha. As paredes são completamente brancas.

Morena

Tens dinheiro?

Homem 3

Sim. Eu posso pagar. Trabalho. Tenho o meu salário.

Morena (assinalando a mesa)

Deixa-o ali.

Silêncio. O homem 3 tira o dinheiro de um dos bolsos do seu casaco interior. Pega em várias moedas da carteira, conta-as e deixa-as sobre a mesa.

Silêncio.

Morena olha para onde está o dinheiro, na mesinha.

Silêncio.

Morena

Penso nele só como se fosse uma prenda.

Silêncio.

Cena 9: negra, homem 2.

A negra e o Homem 2 caminham no meio de uma rua deserta, na tarde de um dia agradável na hora da sesta.

A negra caminha agarrada ao braço do homem 2. Este, caminha com o olhar fixo, perdido no vazio.

Negra

Que vamos fazer?

Silêncio. O homem 2 olha-a.

Negra

Perguntei-te o que vamos fazer!

Homem 2

Queres dizer o que vais fazer.

Negra

Filho da puta.

Homem 2

Tê-lo não é uma posssibilidade.

Negra

Lixo.

Homem 2

Mas isso não me cabe ser eu a dizer.

Negra

Que queres dizer, porco?

Homem 2

Porque é praticamente impossível que eu tenha tido algo a ver com isso.

Negra

E quem teve a ver com isso senão tu?

Homem 2

Não sei. Esse estrangeiro. Viram-te com ele.

Negra

Não estive com ele. Não me podem ter visto.

Homem 2

No entanto viram-te.

Negra

Quem?

Silêncio. O homem 2 pára e olha-a.

Negra

Quem me viu?

Silêncio. O homem 2 tira um cigarro do bolso interior do seu casaco, acende-o e começa a fumá-lo, muito lentamente.

Negra

Perguntei-te quem me viu!

Homem 2

Morena.

Silêncio.

Pausa.

Negra

É verdade. Tens razão. Tê-lo não é sequer uma opção.

Silêncio.

Negra

Vais-me ajudar?

Homem 2

A quê?

Silêncio. A negra olha-o enquanto ele continua a fumar.

Homem 2

Vou-te ajudar.

Negra

Como?

Homem 2

Vou-te foder muito bem fodida.

Negra

E isso não me vai doer muito?

Homem 2

Sim. Um pouco. Não muito, ao principio.

Silêncio.

Negra

Mas que faço se não funciona?

Homem 2

Se não der resultado, atiro-te ao rio.

Negra

E isso vai funcionar?

Homem 2

Não há maneira de não funcionar.

Negra

Mas não é um pouco… perigoso?

Homem 2

Perigoso para ti?

Negra

Sim.

Homem 2

Não. Para ti não.

Negra

Ah. Está bem. Então fico calma.

Silêncio.

Cena 10: Homem 1, Homem 2, Homem 3, Estrangeiro.

O homem 1, homem 2 e o homem 3 estão apoiados sobre uma varanda, no meio de uma rua vazia. Á tarde. O homem 1 fuma, o homem 2 coça a cabeça com força, o homem 3 olha para o chão.

Silêncio.

Entra o estrangeiro.

Silêncio.

O Homem 1 deixa de fumar. Olha para o estrangeiro. O homem 2 e o 3 também deixam de fazer o que estavam a fazer para olhar para o estrangeiro. Este por sua vez devolve-lhes o olhar.

Silêncio.

Os homens 1, 2 e 3 olham-se entre si.

O estrangeiro começa a caminhar. O homem 3, com um movimento brusco, corta-lhe o passo. Os homens 1 e 2 atiram-se ao estrangeiro e agarram-no nos braços. O homem 3 junta-se a eles, dando murros no estomâgo várias vezes.

O estrangeiro cai ao chão. Grita. Os homens 1 e 2 agacham-se para continuar a bater-lhe com mais força. O homem 3, de cima, pateia-o com força. Às vezes bate-lhe no estomâgo, outras vezes na cara. O estrangeiro cobre-se com pode. Sangra.

Silêncio.

Cena 11: Negra, Estrangeiro.

A negra e o estrangeiro caminham no meio de uma rua deserta, na tarde de um dia agradável. É hora da sesta. A negra mexe-se com muita dificuldade, agarrando-se ao braço do estrangeiro. Este também caminha com dificuldade. Tem o olhar fixo, perdido no vazio. Ambos estão cheios de nódoas negras, de cicatrizes e de sangue seco.

Estrangeiro

Cá. Frío. Feio.

Silêncio.

Estrangeiro

Cá. Frio. Feio. Albânia não.

Silêncio.

Estrangeiro

Albânia linda.

Silêncio. A negra tira um cigarro com muita dificuldade e tenta agarrá-lo torpemente com os seus dedos, mas não consegue. Cai ao chão. As suas mãos tremem.

Estrangeiro

Albânia linda.

Silêncio.

Estrangeiro

Cá feio.

Silêncio.

Estrangeiro

Cá gente má.

Silêncio.

Estrangeiro

Albânia gente boa.

Silêncio.

Estrangeiro

Cá dói.

Silêncio.

Estrangeiro

Albânia não dói. Albânia gente boa.

Silêncio. A negra olha-o.

Negra

Vais levar-me à Albânia?

Silêncio.

Cena 12: loira, Morena.

A Ruiva e a Morena, apoiadas sobre uma varanda. Numa rua vazia. Tempo da sesta. A Ruiva fuma um cigarro muito lentamente, a Morena maquilha-se, enquanto olha para um espelho de mão.

Morena

Sim. Sim. Foi horrível. A verdade é que foi horrível.

Ruiva

Mas quem te contou como foi?

Morena

Ninguém.

Ruiva

Como ninguém?

Morena

Vi-o eu.

Ruiva

Ah.

Silêncio.

Ruiva

Não percebo muito bem. Que lhe fez primeiro? Atirou-a ao rio com uma pedra na barriga?

Morena

Pôs-lhe uma pedra na barriga.

Ruiva

E deu resultado?

Morena

Não.

Silêncio.

Ruiva

Então, atirou-a ao rio por isso. Para ver se funcionava.

Morena

Sim.

Ruiva

E funcionou?

Morena

Não.

Silêncio.

Ruiva

Mas aconteceu-lhe alguma coisa?

Morena

Sim. Ela ficou muito maltratada. E ficou com nojo dele.

Ruiva

Claro. Porque a atirou ao rio.

Morena: Não. Porque nenhum dos métodos deramresultado.

Silêncio.

Cena 13: Homem 1, Homem 2.

Os Homens 1 e 2 caminham por uma rua semi-deserta, na hora do almoço. Ambos fumam.

Homem 2

Paga-lhe?

Homem 1

Sim.

Homem 2

A sério?

Homem 1

Sim.

Homem 2

Quanto?

Homem 1

Ah, não. Quanto não sei.

Homem 2

Pagam-lhe muito?

Homem 1

Cada vez que ele cobra o seu salário.

Homem 2

E há muito que é assim?

Homem 1

Há um tempo.

Silêncio.

Homem 2

Que estranho, não?

Homem 1

Porquê?

Homem 2

Sempre pensei que a tua mulher ou a minha podiam cobrar por o fazerem. Digo… as duas são muito atractivas fisicamente.

Homem 1

Sim. É verdade.

Homem 2

Mas a Morena cobra por o fazer!…

Homem 1

O quê?

Homem 2

Isso nunca tinha imaginado.

Homem 1

Porquê?

Homem 2

Bem, digamos que ela não é muito favorecida. É feia.

Homem 1

Por isso mesmo é que ela lhe cobra a ele.

Homem 2

Claro, porque se não lhe cobrasse a ele, talvez nunca tivesse nenhuma oportunidade para o fazer.

Homem 1

Além disso não te esqueças que joga com o seu desespero.

Homem 2

Claro.

Silêncio. Os dois continuam a fumar. Pausa.

Homem 2

Achas que a Morena nos cobrava?

Silêncio. O Homem 1 olha para o 2.

Homem 2

Quero dizer… se nos acontecesse ir…

Silêncio.

Homem 1

Não sei.

Homem 2

Mas que te parece?

Silêncio. O Homem 1 olha primeiro para o Homem 2 e depois para si mesmo.

Homem 1 (com amargura)

Acho que sim. Acho que nos cobrava.

Silêncio.

Pausa.

Homem 2 (duvidando)

E… achas que lhe cobrava a ele?

Homem 1

A quem?

Homem 2

A ele. A esse estrangeiro.

Homem 1 (com muita amargura)

Não. A esse de certeza que não.

Silêncio.

Cena 14: Ruiva, Negra, Morena, Homem 1, Homem 2, Homem 3, Estrangeiro.

Todos eles estão apoiados sobre uma varanda, imóveis, no meio de uma rua vazia, ao entardecer.

A Ruiva pega no braço do Homem 1. A Negra faz o mesmo ao Homem 2. A Morena e o Homem 3 nem se olham.

Silêncio.

Entra o Estrangeiro, vestido de traje. Pára. Fuma.

Silêncio.

http://palavradepalco.blogspot.com/2009/11/ao-cair-da-tarde-de-maximiliano-de-la.html

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